Ontem ao final do dia chovia, literalmente a potes. Eu estava a sair do trabalho e, para variar, nunca presto atenção ao tempo no telejornal, pelo que não tinha guarda-chuva. O sobretudo dava uma boa protecção para o corpo, mas a cabeça e as pernas ficavam a descoberto. Disse mal de mim, da vida e disse mal de outras pessoas e coisas.
Enquanto caminhava, de cabeça baixa, a olhar o chão, sentia os guarda-chuvas que me batiam, sentia as pessoas que empurrava (Porque é que esta gente é tão lenta? Porque é que não se desviam?) e lembrei-me de quando era criança e ia saltar nas poças de água. Lembrei-me que um dia, eu e uma amiga minha, saltamos tanto, que quando cheguei a casa e tirei as meias, descobri que tinha os pés tingidos de azul. Achei logo que não podia dizer à minha mãe, senão ela descobria o que tinha feito. Esfreguei, esfreguei, mas a mancha não desaparecia. Pensei, então que ia ficar com os pés azuis para o resto da vida e que, mais grave do que isso, a minha mãe ia descobrir. Nem dois segundos depois rompia num pranto, que esse sim, não passou despercebido à minha mãe e que rapidamente me acalmou.
E enquanto pensava nisto tive uma ideia: E se em vez de eu reclamar com a chuva, a aproveitasse ao máximo? Olhei para a poça mais próxima, hesitei, pensei e decidi… Timidamente, comecei a arrastar os pés dentro da poça, depois comecei a pisá-la, cada vez com mais força. Senti a água a entrar para dentro dos meus sapatos e arrepiei-me com o frio. Levantei a cabeça e abri a boca e comecei a beber a água da chuva. Lembrei-me que quando era miúda, costumava abrir os olhos por debaixo dos óculos para ver chover em cima. Como só tinha os óculos de sol… lá teve que ser…
E é assim que, de repente, se descobre uma mulher adulta, em pleno centro de Lisboa, dentro de uma poça de água de boca aberta de óculos escuros. Eu diverti-me imenso e passou-me logo o mau humor. As pessoas no metro que estavam ao meu lado é que não devem ter gostado de estar ao lado de alguém tão encharcada.
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